O dinheiro da venda servia para comprar comida, se não desse para financiar o jantar, pelo menos o almoço ficava garantido. E quando alguma rosca quebrava ou ficava defeituosa tínhamos café da tarde. Como não sou muito jeitosa e tenho a mão meio pesada não era raro termos roscas para o café porque na hora de tirar da forma às vezes uma quebrava.
Um dia eu tinha feito uma a mais e meus filhos e o Alan (um amigo que vivia em casa) pediam que eu separasse uma para o café, e estavam de olho na maior e mais bonita. Eu ia deixar uma menorzinha, que não tinha crescido tanto quanto as outras, mas de tanto olho gordo que puseram, na hora que fui tirar da assadeira a mais bonita rachou no meio. Fiquei constenada e me maldizendo pelo mau-jeito, mas não tive outra alternativa senão deixá-la para a família.
Comemos a rosca, mas eu ficava me lamentando porque tinha quebrado a rosca. Eles se entreolhavam, penalizados, e diziam palavras encorajadoras. Da rosca não sobrou nem um farelo.
Mas alguns dias depois me confessaram: ELES tinham quebrado a rosca para que eu a deixasse para o café. E por quê me contaram? Porque ficaram com pena de me ver sentindo-me culpada por ter a mão tão pesada.
Além das roscas eu vendia Avon e Natura, aprendi a fazer limpeza de pele e até noiva eu ajudava a arrumar. A moça chegava de manhã, a cara lavada, e saía à tarde, prontinha para o altar. O chato é que entre idas e vindas o Alan (que também fazia a ornamentação da igreja) acabava paquerando o noivo.
Aprendi a fazer cabelo, maquiagem, manicure e pedicure. Quando já estava ficando divertido e rendendo grana, me chamaram para dar aula no CCAA. Fui, gostei, fiquei. Mas não esqueço do tempo em que os bicos é que garantiam nosso sustento.
E você, já teve que fazer bicos para viver?













