Quando estiver descendo

Trate bem as pessoas quando estiver subindo...

Vivendo de bicos

Quando saí do banco e fiquei na pior eu tinha que comer e pagar as contas (que eram muitas) do mesmo jeito, então o jeito era me virar. Eu que nem sou boa na cozinha aprendi a fazer umas roscas recheadas com goiabada que nem te conto. O Juninho saía para pegar encomendas, eu as fazia e depois ele ia entregar.

O dinheiro da venda servia para comprar comida, se não desse para financiar o jantar, pelo menos o almoço ficava garantido. E quando alguma rosca quebrava ou ficava defeituosa tínhamos café da tarde. Como não sou muito jeitosa e tenho a mão meio pesada não era raro termos roscas para o café porque na hora de tirar da forma às vezes uma quebrava.

Um dia eu tinha feito uma a mais e meus filhos e o Alan (um amigo que vivia em casa) pediam que eu separasse uma para o café, e estavam de olho na maior e mais bonita. Eu ia deixar uma menorzinha, que não tinha crescido tanto quanto as outras, mas de tanto olho gordo que puseram, na hora que fui tirar da assadeira a mais bonita rachou no meio. Fiquei constenada e me maldizendo pelo mau-jeito, mas não tive outra alternativa senão deixá-la para a família.

Comemos a rosca, mas eu ficava me lamentando porque tinha quebrado a rosca. Eles se entreolhavam, penalizados, e diziam palavras encorajadoras. Da rosca não sobrou nem um farelo.

Mas alguns dias depois me confessaram: ELES tinham quebrado a rosca para que eu a deixasse para o café. E por quê me contaram? Porque ficaram com pena de me ver sentindo-me culpada por ter a mão tão pesada.

Além das roscas eu vendia Avon e Natura, aprendi a fazer limpeza de pele e até noiva eu ajudava a arrumar. A moça chegava de manhã, a cara lavada, e saía à tarde, prontinha para o altar. O chato é que entre idas e vindas o Alan (que também fazia a ornamentação da igreja) acabava paquerando o noivo.

Aprendi a fazer cabelo, maquiagem, manicure e pedicure. Quando já estava ficando divertido e rendendo grana, me chamaram para dar aula no CCAA. Fui, gostei, fiquei. Mas não esqueço do tempo em que os bicos é que garantiam nosso sustento.

E você, já teve que fazer bicos para viver?

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O que aprendi

Durante o tempo em que passamos uma fase difícil, vendendo o almoço para pagar o jantar, aprendi algumas coisas:

  • aprendi que muitas pessoas se mantém afastadas apenas porque acham que não as aceitaremos se tentarem se aproximar
  • que algumas fogem quando temos dificuldades, pensando que vamos pedir alguma coisa
  • que certas coisas que pensei que não podia passar sem, hoje sequer me fazem falta
  • que só ninguém chega a lugar nenhum
  • manter a calma em situações difíceis é meio caminho andado para mudar as coisas
  • o ser humano tem capacidade ilimitada de aprender e talentos que só aparecem na hora da necessidade.
Aprendi muito mais, a viver de outra forma, encarar a vida e as pessoas de uma nova maneira, sem acreditar que sempre estarão ali, porque a qualquer momento isso pode mudar.

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Fazendo arroz no chão

Minha filha mais velha conta que uma das lembranças mais marcantes que tem dessa época dura (mas que deu muitos frutos) foi o dia em que chegou em casa e me encontrou fazendo arroz e fritando ovo em dois blocos no chão da área de serviço. O gás tinha acabado e se eu fosse comprar um botijão não haveria dinheiro para o arroz nem para o ovo. Como combustível meus dois filhos mais velhos traziam do quintal os gravetos resultantes de nossa limpeza no quintal.

A "limpeza" demorou 3 dias, mobilizou algumas pessoas além dos membros de nossa família. Como o quintal estava que era um mato só, resolvi carpir. Meus filhos aderiram, pusemos botas e entramos mato adentro.

Nenhum de nós tinha a menor idéia de como fazer, então a coisa toda virou festa. Havia limão e laranja no quintal, de tempos em tempos parávamos para uma limonada gelada ou um suco de laranja. Alguns amigos colaboravam, era uma bagunça.

O pior eram as formigas, que nos atacavam o tempo todo, fiquei toda empolada. No segundo dia já nem sentia as picadas. Acabou virando um acontecimento, e nunca vamos esquecer aquela limpeza. Como resultado ficaram os gravetos que eram nossa salvação em alguma eventualidade. Não tenho lembranças más daquele tempo, era tudo novo e foi vivido com intensidade. Naquela época dura nos redescobrimos mais como seres humanos que como membros de uma família.

Aprendemos o valor do dinheiro e o valor dos amigos. Reestruturamos nossa família e nossa escala de valores. Entendemos que Deus sempre olhará por nós e não nos dará nunca fardos mais pesados do que possamos carregar. E sobretudo, se nos fechar as portas, sempre nos abrirá dezenas de janelas.

Quando meus filhos reclamavam de nossa situação eu dizia:

- Calma, está tudo bem. Pelo menos estamos todos juntos e com saúde.

Foi quando Adeline entrou em coma.

(zailda coirano)

Amigos e amigos

Quando trabalhava no banco eu fazia parte de uma privilegiada "casta" da sociedade pacaembuense que podia comprar o que tivesse vontade e freqüentava os "points" da cidade. Falando nisso agora eu entendo o ridículo da situação, mas na época eu me considerava assim e me sentia confortável, uma vez que vim de uma família que também tinha possibilidade de "ter" o que quisesse.

Eu tinha jóias, carro, casa confortável e meus filhos andavam bem vestidos e calçados, podia me dar ao luxo de matriculá-los em balé, inglês, judô, ou o que fosse e éramos sócios do clube da cidade. Quando saí do banco e me vi privada de tudo o que eu tivera até então minha primeira sensação foi de desamparo. Sem cheque especial, sem empréstimo a juros baixos, sem talão de cheque, eu me via pela primeira vez sem um tostão.

Quando trabalhava no banco e oferecia uma rifa a alguém e essa pessoa me dizia que não tinha dinheiro eu não conseguia entender como uma pessoa podia não ter 5 reais. Ao sair do banco e perder tudo eu entendi como uma pessoa pode não ter 1 real e ter dívidas de mais de 10 mil reais.

Como quando o barco afunda os ratos são os primeiros a abandonar o navio, meu marido foi embora para cuidar da própria vida e nos deixou à nossa própria sorte. Ficamos eu e 5 filhos com o detalhe de que ninguém estava trabalhando. Conseguir formas (lícitas e decentes, claro) de conseguir dinheiro para colocar na mesa almoço (porque janta já seria um luxo) para nós era minha primeira preocupação quando acordava e a última quando me deitava.

Nessa fase aqueles "amigos" que estavam em festas conosco só se aproximavam para xeretar e alguns se mantinham à distância, na certa temendo que eu fosse pedir dinheiro emprestado. Eu não ia.

Em compensação, muitas daquelas pessoas que eu deplorava por considerar "inferiores", as quais muitas vezes eu olhava de cima quando passava de carro com meu marido, aproximaram-se e descobri que havia muitas que eram extraordinárias. Descobri que tinha muitos amigos, alguns dos quais eu nem suspeitava que se incomodavam comigo.

Uma grande amiga que surgiu nessa fase foi a Rose, que apesar de também estar passando por uma fase ruim na época, não se incomodava em dividir o pouco que tinha conosco, e nós dividíamos o que tínhamos com ela, de forma que a amizade cresceu entre nós e nossos filhos.

Não digo que não foi uma fase difícil, mas foi também uma fase muito alegre, nos divertíamos com nossa própria desgraça. Lembro-me que na enésima vez que cortaram nossa luz por falta de pagamento, como não podíamos ver TV acendemos velas e ficamos cantando até altas horas, tomando chá e contando histórias, nós e os filhos da Rose. Como se diz, éramos pobres mas nos divertíamos.

Hoje seguimos rumos diferentes, mas jamais esquecerei daqueles amigos que estavam conosco naqueles momentos e sempre haverá um lugar para eles em meu coração.

(zailda coirano)

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